Confissões

Junho 23, 2009

pieces

Meu isolamento espiritual não foi exatamente como planejei. Se é que havia planejado alguma coisa.

É curioso e reconfortante a maneira como algumas pessoas mais sensiveis e próximas perceberam minha distância. Estava presente de corpo na maior parte do tempo, mas sempre fechado em um turbilhão de pensamentos tentando encontrar respostas para as perguntas que nem mesmo eu sabia quais eram.

Não consegui conversar com todos aqueles que gostaria sobre todos os assuntos que gostaria. Mas eu soube que, desde o principio, a distância geográfica e a volta à terra natal eram necessárias para uma viagem muito maior. Uma viagem interior pra tentar descobrir quem eu fui, quem eu sou e, acima de tudo, quem eu quero ser.

Descobri que sinto falta de pessoas que contam histórias, pessoas com memórias, pessoas interessantes e envolvidas com questões muito maiores do que as futilidades mundanas. Meus amigos e os círculos de convivência atuais que não se ofendam. Peço um mínimo de compreensão em uma hora tão complexa. Talvez todos eles tenham histórias pra contar, talvez todos eles tenham pensamentos acima do dia-a-dia e questoes existenciais e filosoficas intrigantes e latentes. Talvez seja minha única e exclusiva culpa não enxergá-los dessa forma. Eu percebi que tenho pavor de julgamento e, talvez, como defesa, saia julgando, condenando e sentenciando de antemão todos que passam por meu senso crítico enfurecido. Talvez não de chance alguma as pessoas para que contem suas histórias além das coisas fúteis e inúteis que permeiam as relacões pessoais e de trabalho de uma cidade tão grande e rica mas ao mesmo tempo tão vazia e patética. Vazia de valores humanos realmente interessantes. As conversas ficam nas futilidades e idiotices da rotina de uma metrópole humanamente morta. O trânsito, a chuva, as novidades tecnológicas que pouco acrescentam…

Sabe, me dei conta de como é idiota ficar postando babaquices supostamente “interessantes” no Twitter só pra cumprir tabela, pra tentar disfarcar-se de pessoa esclarecida e inteligente dentro de uma certa circunstância, apenas para fazer parte de um grupo o qual nem sei se realmente quero fazer parte.

Percebi que consumo minha energia tentando provar alguma coisa para as pessoas, que fico tentando me passar por algo que não quero ser. É incrível como em certas áreas de atuação e alguns lugares específicos aparecem necessidades e regras que pouco ou absolutamente nada acrescentam a ninguém.

Como disse antes, me dei conta que sinto falta de pessoas mais vivas, humanas. Por alguma razão, parece que me contentei em estabelecer relações que não ultrapassam o patamar da superficialidade e quem sabe até da medicridade. Eu sei que critico ferozmente muita gente, que julgo impiedosamente. Mas talvez eu tenha medo de me aprofudar em muitas relações justamente pelo pavor de também ser julgado, rejeitado.

Mas também aprendi da boca de alguém que admiro muito que tenho de me impor. Que preciso existir, acreditar em mim. Acho que já está mais do que na hora de me dar o crédito e deixar de acreditar que qualquer idiota que enche um currículo de mentiras ou se faz passar por sofisticado e interessante falando da exposição de arte contemporãnea que viu em algum cú de galeria da moda é mais do que eu. Descobri que me impressiono fácil demais com coisas desimportantes, com pessoas desimportantes. Tenho de parar de enxergar as pessoas de longe. Tenho de ver mais de perto pra saber exatamente quem são os idiotas e quem são aqueles que valem a pena.

Sabe… Talvez eu seja mesmo um artista como um espírito iluminado fez questão de me fazer ouvir. E eu sei que tenho negado isso com todas as minhas forças. Outra vez por medo de dar a cara pra bater. Medo de ser comparado com um monte de gente medíocre que se diz grande coisa mas não tem um pingo de sensibilidade. E eu sei que sensibilidade é algo que tenho de sobra. Talvez eu precise me permitir mais e deixar de dar ouvidos aos outros e, principalmente, a minha autocritica que praticamente me acorrenta ao chão toda vez que tento me expressar.

Também descobri que talvez eu tenha gasto muito da minha energia tentando fugir de uma relação complexa de mágoa dentro da minha família. Talvez o resultado de onde estou e quem sou hoje é fruto de um esforço imenso de fuga onde, em momento algum, parei pra pensar onde queria chegar. A única força que me movia era fugir. É triste e dolorido pois me dei conta que hoje mal consigo falar com minha família, me expressar, dizer o que sinto e pedir ajuda. Descobri que sofro com fantasmas horríveis do passado quando volto a casa onde cresci. Basta pisar ali e um mar revolto e crescente de ódio, frustracão e angústia me entorpece o pensamento e me deixa completamente paralisado. Fico calado. Apenas calado tentando entender tudo, sempre sem sucesso.

Eu preciso me aceitar. Talvez precise me descobrir. Quem sabe eu sou um artista de fato. Conversar com a Suzana me fez ver como é bom olhar tudo outra vez com os olhos de crianca, sem censura, sem o rancor negro que brota dentro de mim. Sem pré julgamento. É preciso deixar as coisas fluirem pra perceber pra onde se pode ir.

Eu não sei porque acabei indo por um caminho inverso. O caminho das coisas nas suas respectivas caixinhas, da balela da internet que vai mudar o mundo, das redes socias que são a luz do futuro e mais um monte de coisas que sim, sao interessantes, mas não fazem meu espírito faminto crescer um centímetro que seja. E aí eu pergunto. Em que parte do caminho ficou o prazer?

Meu trabalho atual é medíocre sim e, arrisco dizer, permeado de algumas pessoas medíocres. Medíocres não por opção ou ignorância. É uma mediocriadade irmã da minha inação. Uma mediocridade e permissividade do raso que é inconsciente. Isso por que tanto eu quanto alguns que me cercam se deixaram entrar no ritmo zumbi de uma grande cidade onde você tem de fingir quem você não é 24 horas por dia.

Talvez seja por isso que eu só encontre o prazer na confusão da embriaguez. Nas línguas soltas dos bares e nas madrugadas solitárias escrevendo poemas, anotando sonhos e buscando alguma coisa que não faço idéia do que seja.
Acho que estive me enganando por muito tempo. Talvez porque o lugar onde eu estou não me dê um mínimo espaço para ser um artista. Talvez eu tenha criado o eu tecnólogo como uma forma de me proteger. Ser aceito, sobreviver. Não sei. Talvez seja preciso me negar pra poder me aceitar.

A única coisa que sei é que não dá mais pra continuar onde estou. Mas tenho medo de arriscar justamente pelo pavor de não acertar e ter de voltar pra um lugar que hoje assim como pouco me conforta muito me apavora. Mas eu preciso acreditar em mim. Eu tenho de saber que sou capaz, que sem emprego ou trabalho ou o nome que seja não vou ficar.

Eu fugi até hoje. Acho que agora é hora de parar e me construir. Acho que isso já é um grande comeco. Difícil sim. Doloroso e terrivelmente agustiante. Mas necessário.

O que mais me abalou nisso tudo é me dar conta que eu tenho uma necessidade imensa de pessoas mas, por alguma razão, eu não dou chance a ninguém para que se aproximem e desnudem suas almas. Ou talvez eu esteja mesmo cercado de mediocridade. Talvez um pouco dos dois.

Eu preciso mudar minha postura em relação as pessoas para tentar reencontrar o prazer de encontrar. De outra maneira. Mas talvez as pessoas não tenham tempo pra relação ideal que imagino. Mas só sei que toda a mudança só pode e deve partir de mim. Apenas ainda não sei como.

Não suporto mais assuntos superficiais e mundanos versando sobre a vidinha cosmopolita e vazia da cidade grande. Eu quero almas. Eu tenho necessidade de alimento espirutual, de combustível criativo. Quero gente inteligente sem ser pedante e repetitiva. Eu quero gente que reflita, que tenha opinião e histórias próprias, escritas com o próprio sangue na própria carne. Não quero papagaios que fiquem repetindo frases, pensamentos, obras ou seja la o que for de outros. Eu não quero unanimidades e o censo certinho, educado e comum. Eu quero gente que tenha sangue vermelho e quente correndo nas veias.

Onde estão estas pessoas? Será que eu fiquei cego? Eu sei que só vou encontrá-las rompendo com meu mundinho confortável. Ou derrubando a muralha que construí a minha volta depois de tanto fugir.

Minha fuga desesperada e sem direção me levou à algum lugar. Um lugar que hoje eu tenho certeza absoluta de que é exatamente onde eu nunca quis estar. Ou o pior. Minha fuga me fez algo que eu nunca quis.

Talvez eu me foda e nunca encontre o que procuro. Talvez o idiota nessa história toda, o grande palhaço romântico e imbecil seja um só: eu mesmo.

Mas se não houver coragem eu nunca vou saber.

4 Responses to “Confissões”

  1. Ingrid Says:

    A morte é só o começo , mas se é o começo porque a gente vive, pra sofrer , pra se preparar para morte pro desconhecido .

  2. Isa Says:

    Engraçado, mas acho que tu percebeu uma coisa que sempre pensei em te dizer, mas achava meio metido da minha parte. Julgar os outros é natural e quase sempre inevitável, mas se fechar totalmente por causa de um pré-julgamento pode te isolar de pessoas interessantes – ou que pelo menos tenham algo a te acrescentar.
    O ambiente é medíocre? Concordo. Faça algo pra mudar. Não fica só falando.
    Se me meti demais, pode brigar comigo pessoalmente. Sento atrás de ti. :)

  3. Anônimo Says:

    vai carpi um patio

  4. eloise Says:

    salve, guilhes! se é que consola, eu me identifico com muito do que vc diz. temos sombras gêmeas!!! rsrs. tomar consciência delas é doído, mas não tem outro jeito: é decifra-me ou devoro-te. admiro sua coragem de se expor assim, humano. e não esquece que tu é um querido. força, lucidez e paz no coração pra nós. bjs!


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